Formação em permacultura ajuda trabalhadores rurais
14 Jul 2009 por Gui Castagna em Eventosdo Litoral Norte da Bahia a buscarem a sustentabilidade
Por Maíra Azevêdo
Entre 26 de março e 04 de abril de 2009, uma iniciativa pioneira de formação em permacultura foi realizada no Assentamento AZIMBO, Litoral Norte da Bahia. Um grupo de 20 trabalhadores rurais, entre assentados e moradores da região, recebeu o certificado de PDC (Curso de Desenho em Permacultura) das mãos do professor Tony Andersen, arquiteto e veterano permacultor dinamarquês, envolvido em diversas experiências com projetos de sustentabilidade pelo mundo há mais de três décadas.
O pioneirismo da iniciativa deveu-se à metodologia utilizada na organização do curso e na didática empregada. O processo de organização durou dois meses de construção participativa, aproximação com o grupo e envolvimento de parceiros. Discutimos em conjunto a proposta de realização, os preparativos necessários, a construção de melhorias e as regras de convivência, de modo que todos compartilhassem as responsabilidades pela realização do curso. Como parceiros, além da Associação de Trabalhadores Rurais do Assentamento e do Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas (CETA), envolveram-se o Coletivo Linha Verde, a ONG Children’s Project (CP) da Alemanha, a Rede Permear, a Livraria Tapioca e o Instituto de Permacultura da Bahia (IPB). A parceira possibilitou buscar formas para reduzir o custo da empreitada, de maneira que o valor final necessário para a realização do mesmo pôde ser totalmente custeado pela CP, possibilitando que os trabalhadores participassem gratuitamente. O curso também contou com a participação da Organização Permacultura e Arte (OPA).
Outro destaque foi a didática utilizada, adaptada para uma linguagem de fácil compreensão pelo grupo. Fazendo uso de ilustrações e dinâmicas de vivências coletivas, buscou-se favorecer o aprendizado fomentando muitos diálogos sobre os conteúdos trabalhados. Durante todo o curso, deu-se destaque à importância de se estabelecer uma organização focada na cooperação, fortalecedora da autonomia do grupo e, a partir daí, capaz de buscar uma maior articulação com outros atores da região, ao mesmo tempo podendo transformar o Azimbo num núcleo rural produtivo modelo. A idéia da formação foi introduzir e aplicar a permacultura como ferramenta de educação e planejamento.
A parceria com o Coletivo Linha Verde foi fundamental para promover uma aproximação entre os trabalhadores rurais do assentamento e os de outras áreas próximas, bem como a troca de experiências entre eles. A organização formada por comunitários de diversas localidades (como Diogo, Barra de Itariri, Subaúma, Conde, Baixio, Jandaíra, Porto Sauípe) ajudou na logística e também na articulação de participantes da região, pois foram disponibilizadas vagas gratuitas também para o Coletivo. O Coletivo foi um dos provocadores da iniciativa, pois sua atuação na região tem o intuito de fortalecer as comunidades tradicionais locais.
Durante a fase preparatória do curso, os principais problemas relatados foram em relação à dificuldade com a produção agrícola no local do assentamento, que ainda é pequena. Problemas com solo e compostagem e necessidade de formações foram apontados. A área do assentamento foi antigamente uma fazenda de côco e apresenta solo exaurido pelo mau uso. Existe boa disponibilidade de água, porém o uso é precário, não havendo distribuição para os barracos nem para os locais de convivência coletiva. Outra questão levantada foi a localização dos sanitários e o uso adequado dos mesmos para evitar contaminação.

Assim, o curso abordou, além de todo o fundamento teórico e base ética da permacultura, a melhor forma de aproveitar os recursos disponíveis no local para incrementar a produtividade, de forma a potencializar a autonomia e a abundância. Foram criados novos canteiros produtivos, abordados aspectos sobre a forma mais viável de utilizar a compostagem e foi construído um novo sanitário seco de uso comum. Os trabalhadores ficaram bastante envolvidos, discutindo e já incorporando conceitos e práticas à sua rotina e demonstrando grande capacidade de iniciativa.

Além de elogiarem a metodologia, os participantes consideraram o conteúdo aplicável à sua realidade, reconhecendo, no entanto, a necessidade de existir uma fase de adaptação e destacaram a convivência respeitosa durante o período do curso, já que houve uma estreita convivência com participantes externos e com a própria equipe técnica. A receptividade, disciplina, capacidade de trabalho e disposição e a resistência do movimento mereceram destaque. Chamou a atenção de todos a capacidade de percepção e sensibilidade do professor com relação`a realidade local, pois os participantes apontaram sua generosidade e seu modo de transmitir novos conhecimentos levando em conta o conhecimento tradicional. A tolerância, o respeito e a troca de experiências foram constantes.

Como produto final do curso, foi elaborado um desenho do planejamento permacultural do local, com sugestões dadas pelos participantes. O curso foi encerrado com o plantio de mudas de árvores frutíferas e flores pelos participantes. Cada muda plantada ficou sob responsabilidade de um morador do assentamento, como forma de manter o vínculo entre os participantes. A dinâmica foi sugerida por lideranças locais.
Sobre o assentamento e a região
O Azimbo fica inserido na APA Litoral Norte. Toda essa região faz parte do bioma Mata Atlântica, é rica em atrativos naturais e possui uma cultura tradicional voltada sobretudo para a pesca, artesanato e produção agrícola. Mais recentemente, tem sido marcada pela expansão de empreendimentos turísticos e residenciais, que trouxeram também fortes conflitos socioambientais para as comunidades tradicionais.
O assentamento AZIMBO constitui uma das bases da regional Recôncavo do CETA (Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas) na Bahia e possui uma área total de 246,340 ha, dos quais 51,0926 ha compõem área de reserva legal. Os trabalhadores estão assentados no local há cerca de 6 anos, mas, apesar de ser uma área já reconhecida pelo INCRA, falta a Licença Ambiental para sua formalização definitiva. Por isso, eles também têm dificuldade de acesso a recursos do governo federal. O Azimbo, segundo definição do próprio grupo, está na condição de projeto de assentamento e possui também um acampamento permanente. Os acampados passam um período de treinamento com lideranças do grupo. Existe um PDA (Plano de Desenvolvimento Agrário) já elaborado com a previsão de abrigar 21 famílias no local. Há um cuidado com a seleção dos assentados, que precisam demonstrar vínculo com o trabalho rural e harmonia com a dinâmica do grupo.
Depois do curso
O trabalho proposto partiu, sobretudo, do intuito de fomentar a autonomia do grupo como base para a sua sustentabilidade, por isso exercitou-se o respeito a um período de “digestão” dos conteúdos. A idéia era perceber como se daria a absorção e a multiplicação do aprendizado. A primeira visita posterior ao curso aconteceu em 02 de julho de 2009. Nesse intervalo, a prioridade manifestada pelo grupo foi o cuidado com a organização social, assim a Associação busca agora se fortalecer para aumentar seu poder de negociação da sua produção e de articulação com produtores e outros atores da região.
Entre maio e junho, houve na região um período com muitas chuvas, muito bem aproveitado pelo grupo para fazer novos canteiros, de onde já se fez uma colheita. A produção orgânica já desperta interesse de consumidores da região. O grupo tem aproveitado os insumos locais para enriquecer o solo (sobretudo as podas, pois o resto de alimento tem sido quase que totalmente consumido pelos animais mesmo). Também foram feitos novos canteiros de flores atrás do barracão.


O curso teve uma ótima repercussão no grupo. Os aprendizados do PDC foram multiplicados e o grupo avançou na sua organização, busca por autonomia e capacidade de negociação, todos ingredientes fundamentais na busca por sua sustentabilidade. Tal qual clama o seu grito: “AZIMBO: TERRA, TRABALHO E LIBERDADE!”
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Parabéns pelo trabalho!! A Escola Milton Santos no PR tem uma proposta tb com trabalhadores de assentamentos e está em pleno desenvolvimento! Espero que surjam mais propostas como esta no Sudeste tb, englobando as diversas formas de popularização da permacultura.
Olá, estou interessada em aprender como construir minha casa de terra.Gostaria de fazer o curso, teria disponibilidade para Outubro e qual o valor?
No aguardo
Eva