do Litoral Norte da Bahia a buscarem a sustentabilidade

Por Maíra Azevêdo

Entre 26 de março e 04 de abril de 2009, uma iniciativa pioneira de formação em permacultura foi realizada no Assentamento AZIMBO, Litoral Norte da Bahia. Um grupo de 20 trabalhadores rurais, entre assentados e moradores da região, recebeu o certificado de PDC (Curso de Desenho em Permacultura) das mãos do professor Tony Andersen, arquiteto e veterano permacultor dinamarquês, envolvido em diversas experiências com projetos de sustentabilidade pelo mundo há mais de três décadas.

O pioneirismo da iniciativa deveu-se à metodologia utilizada na organização do curso e na didática empregada. O processo de organização durou dois meses de construção participativa, aproximação com o grupo e envolvimento de parceiros. Discutimos em conjunto a proposta de realização, os preparativos necessários, a construção de melhorias e as regras de convivência, de modo que todos compartilhassem as responsabilidades pela realização do curso. Como parceiros, além da Associação de Trabalhadores Rurais do Assentamento e do Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas (CETA), envolveram-se o Coletivo Linha Verde, a ONG Children’s Project (CP) da Alemanha, a Rede Permear, a Livraria Tapioca e o Instituto de Permacultura da Bahia (IPB).  A parceira possibilitou buscar formas para reduzir o custo da empreitada, de maneira que o valor final necessário para a realização do mesmo pôde ser totalmente custeado pela CP, possibilitando que os trabalhadores participassem gratuitamente. O curso também contou com a participação da Organização Permacultura e Arte (OPA).

Outro destaque foi  a didática utilizada, adaptada para uma linguagem de fácil compreensão pelo grupo.  Fazendo uso de ilustrações e dinâmicas de vivências coletivas, buscou-se favorecer o aprendizado fomentando muitos diálogos sobre os conteúdos trabalhados. Durante todo o curso, deu-se destaque à importância de se estabelecer uma organização focada na cooperação, fortalecedora da autonomia do grupo e, a partir daí, capaz de buscar uma maior articulação com outros atores da região, ao mesmo tempo podendo transformar o Azimbo num núcleo rural produtivo modelo. A idéia da formação foi introduzir e aplicar a permacultura como ferramenta de educação e planejamento.

A parceria com o Coletivo Linha Verde foi fundamental para promover uma aproximação entre os trabalhadores rurais do assentamento e os de outras áreas próximas, bem como a troca de experiências entre eles. A organização formada por comunitários de diversas localidades (como Diogo, Barra de Itariri, Subaúma, Conde, Baixio, Jandaíra, Porto Sauípe) ajudou na logística e também na articulação de participantes da região, pois foram disponibilizadas vagas gratuitas também para o Coletivo. O Coletivo foi um dos provocadores da iniciativa, pois sua atuação na região tem o intuito de fortalecer as comunidades tradicionais locais.

Durante a fase preparatória do curso, os principais problemas relatados foram em relação à dificuldade com a produção agrícola no local do assentamento, que ainda é pequena. Problemas com solo e compostagem e necessidade de formações foram apontados. A área do assentamento foi antigamente uma fazenda de côco e apresenta solo exaurido pelo mau uso. Existe boa disponibilidade de água, porém o uso é precário, não havendo distribuição para os barracos nem para os locais de convivência coletiva. Outra questão levantada foi a localização dos sanitários e o uso adequado dos mesmos para evitar contaminação.

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Assim, o curso abordou, além de todo o fundamento teórico e base ética da permacultura, a melhor forma de aproveitar os recursos disponíveis no local para incrementar a produtividade, de forma a potencializar a autonomia e a abundância. Foram criados novos canteiros produtivos, abordados aspectos sobre a forma mais viável de utilizar a compostagem e foi construído um novo sanitário seco de uso comum. Os trabalhadores ficaram bastante envolvidos, discutindo e já incorporando conceitos e práticas à sua rotina e demonstrando grande capacidade de iniciativa.

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Além de elogiarem a metodologia, os participantes consideraram o conteúdo aplicável à sua realidade, reconhecendo, no entanto, a necessidade de existir uma fase de adaptação e destacaram a convivência respeitosa durante o período do curso, já que houve uma estreita convivência com participantes externos e com a própria equipe técnica. A receptividade, disciplina, capacidade de trabalho e disposição e a resistência do movimento mereceram destaque.  Chamou a atenção de todos a capacidade de percepção e sensibilidade do professor com relação`a realidade local, pois os participantes apontaram sua generosidade e seu modo de transmitir novos conhecimentos levando em conta o conhecimento tradicional. A tolerância, o respeito e a troca de experiências foram constantes.

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Como produto final do curso, foi elaborado um desenho do planejamento permacultural do local, com sugestões dadas pelos participantes. O curso foi encerrado com o plantio de mudas de árvores frutíferas e flores pelos participantes. Cada muda plantada ficou sob responsabilidade de um morador do assentamento, como forma de manter o vínculo entre os participantes. A dinâmica foi sugerida por lideranças locais.

Sobre o assentamento e a região

O Azimbo fica inserido na APA Litoral Norte. Toda essa região faz parte do bioma Mata Atlântica, é rica em atrativos naturais e possui uma cultura tradicional voltada sobretudo para a pesca, artesanato e produção agrícola. Mais recentemente, tem sido marcada pela expansão de empreendimentos turísticos e residenciais, que trouxeram também fortes conflitos socioambientais para as comunidades tradicionais.

O assentamento AZIMBO constitui uma das bases da regional Recôncavo do CETA (Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas) na Bahia e possui uma área total de 246,340 ha, dos quais 51,0926 ha compõem área de reserva legal. Os trabalhadores estão assentados no local há cerca de 6 anos, mas, apesar de ser uma área já reconhecida pelo INCRA, falta a Licença Ambiental para sua formalização definitiva. Por isso, eles também têm dificuldade de acesso a recursos do governo federal. O Azimbo, segundo definição do próprio grupo, está na condição de projeto de assentamento e possui também um acampamento permanente. Os acampados passam um período de treinamento com lideranças do grupo. Existe um PDA (Plano de Desenvolvimento Agrário) já elaborado com a previsão de abrigar 21 famílias no local. Há um cuidado com a seleção dos assentados, que precisam demonstrar vínculo com o trabalho rural e harmonia com a dinâmica do grupo.

Depois do curso
O trabalho proposto partiu, sobretudo, do intuito de fomentar a autonomia do grupo como base para a sua sustentabilidade, por isso exercitou-se o respeito a um período de “digestão” dos conteúdos. A idéia era perceber como se daria a absorção e a multiplicação do aprendizado. A primeira visita posterior ao curso aconteceu em 02 de julho de 2009. Nesse intervalo, a prioridade manifestada pelo grupo foi o cuidado com a organização social, assim a Associação busca agora se fortalecer para aumentar seu poder de negociação da sua produção e de articulação com produtores e outros atores da região.

Entre maio e junho, houve na região um período com muitas chuvas, muito bem aproveitado pelo grupo para fazer novos canteiros, de onde já se fez uma colheita. A produção orgânica já desperta interesse de consumidores da região. O grupo tem aproveitado os insumos locais para enriquecer o solo (sobretudo as podas, pois o resto de alimento tem sido quase que totalmente consumido pelos animais mesmo). Também foram feitos novos canteiros de flores atrás do barracão.

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O curso teve uma ótima repercussão no grupo. Os aprendizados do PDC foram multiplicados e o grupo avançou na sua organização, busca por autonomia e capacidade de negociação, todos ingredientes fundamentais na busca por sua sustentabilidade. Tal qual clama o seu grito: “AZIMBO: TERRA, TRABALHO E LIBERDADE!”


2 Respostas para “Formação em permacultura ajuda trabalhadores rurais”  

  1. 1 Luana

    Parabéns pelo trabalho!! A Escola Milton Santos no PR tem uma proposta tb com trabalhadores de assentamentos e está em pleno desenvolvimento! Espero que surjam mais propostas como esta no Sudeste tb, englobando as diversas formas de popularização da permacultura.

  2. 2 Eva

    Olá, estou interessada em aprender como construir minha casa de terra.Gostaria de fazer o curso, teria disponibilidade para Outubro e qual o valor?
    No aguardo
    Eva

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