Jardin do Éden
22 Jun 2006 por Claudio Jacinto em DesignÉ correto a morte nutrir a vida? Não se assuste com esta pergunta, vamos tratar de respondê-la nas próximas linhas. Talvez a grande maioria dos leitores tenha bastante noção do que direi agora, mas não custa relembrar e informar aos demais alguns fatos no mínimo estranhos. Hoje, apesar de existir no mundo alimento suficiente para o dobro da população mundial, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), não é novidade que a fome assola grande parcela desta população. Porém, o foco deste artigo não são as questões político-econômicas e sim os aspectos sócio-ambientais envolvidos no sistema produtivo agrícola dominante em todo o planeta.
É uma grande contradição, mas a atividade básica de qualquer cultura, em qualquer tempo, aquela que provê o alimento que nos vitaliza, é hoje um dos grandes responsáveis pela destruição ambiental. Regida pelas grandes monoculturas mecanizadas, a agricultura moderna está devastando nossa Grande Casa Comum, a Terra: perda de solo e nutrientes, erosão e assoreamento de corpos d´água, grande contribuição para o efeito estufa pelas queimadas, interferência nos ciclos das águas, dizimação da biodiversidade e de ecossistemas inteiros, desertificação, e ainda concentração de renda, exclusão social, êxodo rural e inchaço urbano. Meu Deus, já chega! Perdoem-me tanta sinceridade, mas já basta. Aprendi na Permacultura a conhecer os problemas para solucioná-los. Então, vamos ao que interessa.
Sistemas Agroflorestais
Existem formas diferentes de culti-var a terra. Ainda hoje, em alguns lugares do nosso planeta, populações ancestrais se mantêm cultivando a terra de modo saudável, preservando os ensinamentos de seus antepassados. Hoje, os antigos princípios são chamados de agroecológicos e as práticas de manejo vêm recebendo contribuições de diversas áreas científicas que geram tecnologias apropriadas. Dentre os novos métodos está a agrofloresta ou Sistemas Agroflorestais (SAFs), que também são chamados pelos permacultores originais de Floresta de Alimentos ou Jardim do Éden.
Valendo-se dos princípios agroecológicos, vários entendimentos e práticas de manejo vem sendo chamados de Agrofloresta, desde o simples consórcio entre duas espécies, sendo uma cultura anual e uma florestal, até modelos complexos espelhados na sucessão natural (processo natural através do qual os ecossistemas evoluem). Aqui falaremos deste segundo.
Complexidade e vida em abundância
A agrofloresta que mais conheço é baseada no modelo desenvolvido pelo suíço Ernst Götsch, radicado no Brasil há cerca de trinta anos. Ele vem desenvolvendo seu belo trabalho numa fazenda no sul da Bahia, que tem hoje uma das maiores biodiversidades da Mata Atlântica, fruto do trabalho que alia produção à recuperação e conservação da floresta. Com uma base filosófica forte, o pensamento que rege este método pode ser descrito com as palavras do próprio Ernst:
Para cada passo que ando e para tudo em que intervenho, previamente me pergunto: o que posso fazer para que, como resultado da minha presença e das minhas intervenções, nasçam e se desenvolvam sistemas mais prósperos, mais vida com toda a sua abundância e mais complexidade em todos os aspectos presentes no Planeta Terra, do qual somos apenas parte, e não mais importantes do que todas as outras espécies
Para começarmos a entender os princípios da agrofloresta será necessário mexermos em paradigmas muito enraizados em nossa cultura. O primeiro deles é o da competição, que rege a nossa mentalidade e as nossas atitudes. O sistema capitalista nos introjetou esta visão de mundo, oferecendo-nos uma falsa liberdade, mas, ao olhar atentamente para a natureza, veremos principalmente cooperação. Uma floresta só se sustenta pelas interações que nela ocorrem: uma planta criando condições para o desenvolvimento de outras, um predador que dissemina as sementes e assim por diante.
Outro paradigma a ser substituído é o da escassez - este trocaremos pelo da abundância. Como é possível que um solo chamado de “pobre” e impróprio para a produção, como é o caso dos solos da Amazônia e do Cerrado, tenha árvores enormes como a Sumaúma (famosa árvore gigante da Amazônia)? Acontece que, ao queimar a vegetação, queima-se com ela cerca de 80% dos nutrientes de que precisam as plantas, e ainda acaba-se com as condições para a manutenção da microvida do solo. Pelo medo da escassez, a nossa sociedade só pensa em acumular determinados produtos e muito dinheiro, destruindo a abundância e a riqueza natural dos ecossistemas tropicais.
Copiar a natureza
Como se pode ver, o modelo que propomos não é apenas uma receita técnica, mas a reformulação das bases do pensamento que geraram as práticas agrícolas chamadas hoje de convencionais. Partiremos então do nosso melhor exemplo: as florestas nativas. Conhecendo seus processos, sua biodiversidade e sua evolução natural, aplicaremos em nossos agroecossistemas os princípios evolutivos que regem a vida. Os principais deles são a alta diversidade e a inter-relação.
Se num hectare de floresta nativa ocorrem 200 espécies vegetais, então, em nosso sistema cultivado podemos nos aproximar desta quantidade. Assim, por exemplo, plantaremos o milho, que não compete com o abacaxi, que coopera com o crescimento da goiaba, que favorece a copaíba, criadora de abundância, abundância geradora de vida, vida que se perpetua ciclicamente num processo complexo e dinâmico. Em linhas gerais, a metodologia consiste em reproduzir a sucessão natural, acelerando-a, criando abundância de espécies, alta densidade e ótimas condições de solo. Isso pode ser feito com a seleção de espécies apropriadas para as condições específicas, levando-se em conta as características de solo, vegetação e clima. Então, definimos o que queremos produzir e planejamos os passos necessários para isso.
O requisito básico para os sistemas tropicais é a acumulação de matéria orgânica no solo. Para isso, podemos utilizar espécie pioneiras (aquelas que são as primeiras a trabalhar o solo, criando condições para a evolução do sistema). Algumas delas são conhecidas como adubo verde, pois tem alto teor de nutrientes em sua massa vegetal. O exemplo mais comum são as leguminosas.
Outras pioneiras “amigas” são os capins, os mais indicados no caso de solos muito degradados. Importante também é manter a sucessão. Então, quando o ciclo das pioneiras encerrar-se, devemos ter as secundárias. Vale salientar que todas serão plantadas juntas de forma sistemática e plantaremos também as árvores do futuro, aquelas que crescerão lentamente e que viverão até algumas centenas de anos.
Princípios de sustentação da Vida
Outro aspecto de grande importância é conhecer a arquitetura das plantas, isto é, os seus hábitos de crescimento e o porte que atingem, pois é através deste conhecimento que podemos fazer um arranjo espacial adequado, tal qual a floresta, onde num metro quadrado ocorrem várias espécies. Isto é o que chamamos de estratos da floresta: uma rasteira, uma herbácea, um sub-arbusto, um arbusto, uma árvore de porte médio, uma árvore de porte alto, as emergentes (aquelas que se sobrepõem) e ainda a trepadeira que abraça as demais.
Uma das vantagens deste sistema é que numa mesma área podemos produzir as hortaliças, como a rúcula, as anuais, como o milho, as fruteiras secundárias, como mamão, e as fruteiras primárias, como o pequi e o jatobá, todas associadas a espécies nativas, gerando um sistema biodiverso e sustentável, que se auto-regula, eliminando o problema das chamadas pragas, que são indicadoras de falha no sistema.
Assim como a Permacultura em seu sentido amplo não apresenta receitas ou pacotes fechados, a agrofloresta também não é diferente. Portanto, cada caso deve ser resolvido localmente, com as espécies adequadas, respeitando-se as vocações regionais. Devemos seguir apenas os princípios que a regem, porque sustentadores da Vida. A intenção deste artigo é apenas lembrar a todos que existem formas diferentes de pensarmos a solução de nossos problemas, como preconiza a Permacultura.
Este artigo foi publicado na Revista Permear, edição No.1.

Gostei muito do artigo, enrriqueceu a minha pesquisa sobre permacultura.Tenho duvidas sobre o manejo com formigas em SAFs, se tiverem alguma experiencia de sua eliminação com o uso de produtos que nao agridam o meio ambiente gostaria de saber.
Obrigada pelo artigo.
A verdadeira vida esta de onde ela veio. A mãe GAIA nos permitiu vir, mas não destrui-la, daí o nosso prefácio da vida: mantê-la intacta!
Adimiro este tipo de técnica onde mesmo povos mais primitivos já desenvolviam, mas sem denominações, obrigações ou acumulo de objetivos, que já lhes proporcionavam bons frutos e uma excelente harmonia com o “tal” natural, da natureza.
Nosso papel em admirar vem do preservar e mais que tudo conservar aquilo que derrotamos a cada dia, a nossa VIDA.
Saudações ecológicas à todos.
Gostei! nós deveriamos ter uma mudança de atitude ,praticar a pro-biótica interior uma conciência de redistribuição dos excedentes suprindo-se com o necessário e destinando a sobra a quem precisa na comunidade de nosso ecosistema ,com isso evitaremos a competição negativa , eliminando sentimentos animalesco, elevaremos o espírito nas práticas do eu pensante e concordante das diretrizes lógica das tecnologia verde consagrada.Sonho um dia em que todos celebraremos na mesa da verdadeira santa ceia dos 12 apostolos dos 12 signos e compartilhando o cristianismo moderno e que seremos uno e REVIGOROSADAMENTE puros “IN-OUT” em nome de DEUS pai. Ainda é tempo não morreremos pela boca,por que vamos construir e praticar uma fonte de pensamento de alto nivel de conciência que não precisaremos mais nos policiar os nossos pecados pois tudo será hábitos sadios de viver e relacionarmos,o existencialismo SERÁ DEBATIDO ,SOLUÇÕES ÉTICAS formatará a vinda de um legítimo sistema social de vida e VIVA! OS COOPERADOS E VOLUNTÁRIOS DA PERMACULTURA
Muito bom o enfoque pois o sistema de permacultura além de trabalhar em sintonia e respeito com a mãe natureza oferece soluções práticas de cuidados, alimentação e geração de renda que não agridam e não distanciam a pesssoas do ambiente. no manejo de agroflorestas quando planto uma árvore nativa seja uma guabiroba, um araçá ou quando levo mudas e ou sementes de palmito juçara para as pessoas que querem plantar, eu penso nas crianças que nunca comeram uma fruta nativa, nas aves silvestres que reclamam quando colho figos maduros mas deixo sempre alguns para eles, enfim na fauna silvestre como se fartam quando encontram frutinhas maduras… Neste final de semana participando do Seminário Nacional da Agricultura Negra e Quilombola em POA vi o brilho e alegria nos olhos das pessoas quando distribuí sementes de milho crioulo e um jovem quilombola pedir informaçãoes sobre o cultivo e aproveitamento da polpa do palmito nativo juçara. Isto me deixou profundamente feliz.
Muito bom! AS primeiras informações que tive da agrofloresta segundo ernst Göetsch foi em por volta de 1997. Cheguei a escrever sobre isso em minha dissertação de mestrado defendida naquele ano. Foi muito bom reler esses princípios básicos. Compartilho com a idéia de cada um desses sistemas pode e deve contribuir em realidades específicas. Nenhum é suficiente por si só, mas conjugados e sinérgicos são de grande importância para o enriquecimento da vida e do planeta como um todo.