MST se renova na universidade
29 May 2006 por Suzana Maringoni em EducaçãoA Universidade Federal de Santa Catarina é uma das primeiras a abrir as portas ao MST. A cerimônia de formatura dos 22 jovens assentados/acampados revela o nascimento de um pacto entre a elite intelectual e a base da sociedade brasileira.

Diante do reitor, professor Lúcio José Botelho, solenemente trajado, a professora Lúcia Lenzi, coordenadora do PRONERA - CED da UFSC, ressaltou que “não se pode falar em direitos humanos sem a garantia da alfabetização e seus desdobramentos”.
A emoção dos alunos comprova o quanto eles são determinados a lutar pela inclusão social. “Nós não vivemos só para tomar terras improdutivas, a nossa intenção é dominar as ciências sociais, as ciências filosóficas e as ciências agrárias, nós lutamos pelo conhecimento e não será o ataque sistemático da grande imprensa e da elite que domina esse país que vai minar a nossa luta”, afirmou Lucídio Ravanello, outro coordenador do movimento no Estado.
Já é o terceiro ano de um convênio que forma educadores para o MST certificados pelo Colégio de Aplicação da UFSC. Além desses esforços para recuperar os que perderam anos de escolaridade na infância e juventude, o movimento, só entre a população de assentados, possui um milhão de crianças e adolescentes matriculados na rede pública.
A educação, segundo Sônia Rodrigues, coordenadora de ensino do MST de Santa Catarina, é uma das prioridades do movimento. “Por meio dela é que crianças, jovens e adultos ganharão a inclusão na sociedade, porque o objetivo não é unicamente assentar pessoas em terras improdutivas, mas incluir na sociedade aqueles que estão excluídos”, afirma.
No auditório, cerca de 50 pessoas, homens e mulheres entre 16 e 62 anos, apresentam seis diferentes resultados teóricos para uma tese a ser defendida na prática: uma família de cinco pessoas deve dar conta de viver sustentavelmente em uma área rural de 1,5 hectares.
A família vai construir a casa, encontrar a água, canalizá-la ou construir cisternas, gerar energia, plantar, criar animais e preservar uma zona, denominada zona cinco, que seria a de mata nativa, intocável.
Esse desafio, marcado para fechar as 72 horas-aula dadas pelo biólogo e permacultor Jorge Timmermann, foi resolvido teoricamente pelos seis grupos de agricultores, já assentados ou ainda acampados, do MST de Santa Catarina, acompanhados pelos técnicos agrícolas do Incra. As aulas práticas de permacultura foram as últimas das 620 horas-aula que formaram no ensino fundamental, 5ª a 8ª série, 22 dos 26 trabalhadores inicialmente inscritos – um índice de aprovação muito acima da média do Brasil, hoje com 16 milhões de analfabetos.
Permacultura, uma saída digna via pequena propriedade
Para Jorge Timmermann, professor de permacultura e um dos críticos mais enfáticos sobre o que a mídia fez com o termo sustentabilidade, ultimamente utilizado para abrir espaço a novas monoculturas, uma família pode viver sustentavelmente em 1,5 hectares de terra, desde que tenha conhecimento sobre formas alternativas de gerar energia e principalmente não desperdiçá-la, num sistema de reaproveitamento sem excedentes.
“A teoria da sustentabilidade na prática vai depender muito mais da ética dos envolvidos, do que de modelos rígidos”, diz Timmermann. Ele explica que na permacultura se avalia o terreno, os recursos naturais e a distribuição e economia de energia. Não se deve, por exemplo, gastar tempo, dinheiro e tecnologia para corrigir um solo arenoso, mas buscar cultivos específicos, que se dão bem nesse terreno. Assim é feito com encostas, locais extremamente secos, que podem dar cactos, mas não agrião.
A ética, Timmermann garante, precisa ser rígida, não tolerar a exploração desenfreada, a monocultura e as relações totalitárias de poder e subjugação, bases fundamentais da economia capitalista, sempre preocupada em gerar empregados em vez de formar cidadãos livres. A preocupação ambiental na prática da permacultura ultrapassa a reserva de matas, produz banheiros secos, sistemas de aquecimento solar e casas construídas com os materias abundantes no local; podem ser de barro, capim, bambus, madeira ou o que for excedente no local.
A tecnologia é uma ferramenta a ser utilizada de acordo com o raciocínio, o conhecimento e as habilidades humanas, não depende de royalties, pode ficar disponível para cópias, mas a intenção não é a grande escala. “A grande escala vai contra a diversidade e a diversidade exige novas ações naturalmente”, afirma Timmermann.
Segunda geração do MST sabe a quê veio
A professora de matemática que forma alunos do MST de 5ª a 8ª série, Suzana Maringoni, explica que a segunda geração do MST, jovens agora, os filhos dos pioneiros, já chegam trazendo evoluções, mas é difícil contornar a falta de preparo dos que vêm da cidade, nunca plantaram e têm uma visão distorcida da vida no campo.
“Havia uma menina no início do curso que dizia odiar ter nascido no MST. Agora, já formada no ensino fundamental, tem orgulho do movimento e de fazer parte dele, compreendeu seu lugar na sociedade e tem bagagem, foi criada ali, sabe pensar e fazer, já traça planos para o futuro”, revela.
O diferencial dos pioneiros e de seus filhos engajados está no conhecimento. Sônia Rodrigues explica: “até a quarta série, incluindo aí a alfabetização dos adultos, a escola se desloca aos assentamentos, depois entram na escola pública mais próxima e conforme crescem passam a freqüentar cursos específicos”. Os que não conseguiram estudar na juventude ou tiveram dificuldades com a escola, agora estão retornando por meio da parceria entre o Incra e a UFSC. O objetivo do MST é chegar a 0% de analfabetismo na comunidade dos sem terra e para isso não medem esforços. Apoiados, os sem terra podem fazer pela alfabetização no Brasil o que nenhum governo conseguiu até agora.
Projeto Ciranda
Um desses cursos extra-curriculares é o de pedagogia pré-escolar destinado à jovens do Projeto Ciranda, vinculado ao Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa para a Reforma Agrária. O curso, para as interessadas em orientar crianças em fase pré-escolar, nasceu do desejo das meninas que cuidavam dos bebês dos assentados em aprender mais sobre a realidade da fase pré-escolar. Está parado há alguns meses, por motivos que as cinco garotas presentes na formatura dos companheiros acampados e assentados não conseguiram explicar. Mas elas tinham muito para contar.
Segurando carinhosamente um bebê de dois meses, filho de uma das alunas da disciplina de permacultura, a jovem Valéria Aparecida dos Santos, de 18 anos, do acampamento de Araquari, conta um pouco de sua vida. “Nasci no MST, estou terminando o segundo ano do ensino médio e quero estudar pedagogia na faculdade, enquanto isso vou fazendo os cursos de assessoria pedagógica oferecidos ao movimento, é isso o que gosto, orientar as crianças.” A fala de Valéria desmistifica a idéia de que as pessoas do MST só podem ser agricultoras e dá sentido à incorporação de outros cidadãos brasileiros excluídos do ganha-pão diário urbano e rural.
As meninas do MST Carla Mendes, Daiane Paz, Geisilene Bed, Aline Bogo e Valéria dos Santos são politizadas, têm uma inteligência viva, são audazes, nada dispostas a viver na sombra da sociedade e ao mesmo tempo conscientes sobre o que a sociedade pensa a respeito delas; já sabem pensar sozinhas a respeito da grande mídia, por exemplo: “todos pensam que somos bandidos, nossos pais são perseguidos porque a imprensa só sabe falar das invasões de terra, a sociedade não está bem informada sobre a nossa realidade”, desabafa Daiane Paz, arregalando enormes olhos cor de mel, sem alterar o tom da voz, pausada e doce.
Elas sabem o que desejam, estão bem informadas, querem, precisam e acreditam no futuro que estão criando. Têm entre 15 e 18 anos, aparentemente em nada diferem das meninas de classe média que vemos circular pelos shoppings, mas, quando começam a falar, qualquer um percebe que estão à frente de seu tempo.
Silenciosamente eles saem de mais um abril vermelho, desviando-se das perseguições da mídia, os trabalhadores do MST vão encontrando na raiz da palavra que virou moda e perdeu o sentido nos noticiários – sustentabilidade – um futuro para se fortalecer e crescer.
*Artigo publicado no Jornal JÁ por Cláudia Rodrigues.
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Olá. Gostaria de saber se os cursos de permacultura ainda acontecem na universidade e se são abertos a todos. Obrigado
Hugo
Olá!
Estes cursos acontecem dentro do PRONERA, que é um projeto na UFSC. Os cursos são fechados para os agricultores/ educadores vinculados ao projeto. Como o Pronera trabalha com a capacitação de agricultores, as capacitações são feitas em diversos locais, em jornadas de 5 a 9 dias- em Caçador, em Lages, e às vezes no CED- UFSC. Os cursos de permacultura são em blocos, pois tem uma carga horária mínima de 72 horas. Este artigo relata o último bloco, onde se faz o design, do projeto 2004/2005.
No projeto atual( 2005/2007) o grupo de 54 agricultores fez o primeiro bloco em Caçador e fará o segundo em Lages em agosto.
Qualquer dúvida, estamos à disposição…
Suzana
Estou em Juiz de Fora/MG - Como poderei ter acesso a cultura do PDC?
Valdir
Sobre o assunto PDC há uma discussão anterior nestaa mesma página da Permear,
dizendo o que é, etc…
O PDC é um curso básico, para dar o start, ou o “ponta pé inicial” para a formação
do permacultor… Então, seria legal fazer um curso, que podes organizar um
grupo e propor um PDC ai na sua cidade! Em Minas tem a Rosileli, que já tem um
trabalho legal como permacultora, ela está em Caxambu ( é meio perto dai?)…
Cursos organizados no local são bem mais baratos e bem legais, pois as pessoas
que vão continuar no processo acabam se apoiando… Fazendo uma teia de ações
mesmo!
Até mais…
Suzana
Sônia, preciso de seu endereço.
Axé Sandra
oi
preciso saber urgentemente de alguns projetos futuros do MST,é pra um trabalho da escola,e eu nao acho em site nehum
me mande a resposta em no maximo dia 27/05,por favor
tchau
Companheiros de lutas, necessito fazer um curso superior, que de-me suporte como: moradia, alimentaçao e ensino gratuito. Por gentileza saberiam imforma-me. Lhes agradeço. Gandu 12/06/2007, fone:(73)32540802 Eron.
parabéns a todos(as) q/ participam dessa luta
gostaria de saber como poderia fazer para cursar uma faculdade atraves do mst morro no assentamento noel guarani bossoroca rio grande do sul